O que você vai aprontar no pedacinho que lhe couber?

Cultura, Reflexões
06/10/2017


Hoje o Facebook me lembrou que algum tempo atrás eu assisti uma das peças teatrais que mais me impactou positivamente e de alguma forma me transformou, me deu aquele chacoalhão. Galileu Galilei de Brecht. Procurei na internet o texto final da peça e achei! Quero compartilhar com vocês:
———
A pratica da ciência exige coragem, ela negocia com o saber conquistado pela dúvida, como artista eu tive uma oportunidade única, eu vi a astronomia alcançar as praças do mercado a nossa nova arte da dúvida encantou o grande público que arrancou o telescópio das nossas mãos para apontar para seus carrascos, entretanto esses homens poderosos nos cobriram de ameaças e ofertas de suborno, irresistíveis para as almas fracas.

Nessa hora a firmeza de um homem poderia ter causado grandes abalos. Seremos ainda cientistas se nos deligamos da multidão? Vocês trabalham para que?

Eu acredito que a única finalidade da ciência está em aliviar a canseira da existência humana e se os cientistas intimidados pela prepotência dos poderosos acham que basta amontoar saber por amor ao saber, a ciência pode ser transformada em um monstro e nossas novas máquinas serão novas aflições, nada mais.
Bertolt Brecht (Galileu Galilei)

———-
Mude Ciência/ Cientista para arte/ artista, mude para os que já foram perseguidos, mude para místicos, filósofos. O alvo muda, o objetivo tenebroso mantém-se o mesmo.

Galileu Galilei em seus últimos dias encarcerado dentro de sua casa, cumprindo pena, era vigiado constantemente, proibido de escrever qualquer coisa considerada heresia. Mas a noite em seu quarto escuro, iluminado apenas pelos restos de luz da lua das noites claras ele terminou a sua obra.

 

Compartilhar

O tempo e eu

Bloco de notas, Reflexões
19/05/2016

206602701625293070AXVzh1yYc

É provável, mas não é certeza, que tenho pela frente mais futuro do que passado. De qualquer maneira, sou grata por hoje, na dita “flor da idade”, poder ler o que Rubem Alves nos revelou, admirar esse ponto de luz e refletir sobre ele.

Esses dias li uma frase, do Chapeleiro de Alice, que diz assim: “se você conhecesse o Tempo tão bem quanto eu conheço, não falaria em gastá-lo como se fosse uma coisa. Ele é alguém.”

Eu sempre acreditei nisso. O tempo pode ficar profundamente magoado conosco, quando não lhe damos o devido valor. E que VALOR o Tempo tem!

—-

O TEMPO E AS JABUTICABAS – RUBEM ALVES

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver
daqui para frente do que já vivi até agora.
Tenho mais passado do que futuro…

Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas…
As primeiras, ele chupou displicente… mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço…

Já não tenho tempo para lidar com mediocridades…
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram,
cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

Já não tenho tempo para conversas intermináveis…
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas que,
apesar da idade cronológica, são imaturas…

Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral…

As pessoas não debatem conteúdos… apenas os rótulos…
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos…
quero a essência… minha alma tem pressa…

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços…
não se encanta com triunfos…
não se considera eleita antes da hora…
não foge de sua mortalidade..

Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade…

O essencial faz a vida valer a pena…
e para mim basta o essencial…

 

———

Ilustração: pinterest

 

 

Compartilhar

Objetivo de vida – para quem quer fazer uma boa arte

Criatividade, Reflexões
02/05/2016

388964

Esses dias navegando pelo Facebook e com vontade de reclamar de tudo, comecei a refletir sobre meu tempo, meus objetivos e minha vontade de manifestar minhas ideias. Percebi que estava inconscientemente à deriva, não só nas redes sociais, mas também na vida, afinal de contas, eu já tenho objetivos! Ser uma escritora bem-sucedida, escrever muitos livros, crescer como ser humano entre outras coisas.

Cheguei à conclusão de que para realizar tudo isso eu preciso apenas de duas coisas: tempo e energia. Percebi que, lamentavelmente, estava desperdiçando tudo isso reclamando e discutindo. Oras bolas! Bolinhas e bolões…. Comecei a meditar a respeito e percebi que toda boa arte surgiu da inconformidade dos seus autores. Surgiu do desejo latente de manifestar algo que abordasse os temas e as experiências que essas pessoas queriam e precisavam tanto colocar para fora, mas ao invés de serem os “chatos do Facebook” (que a lista de amigos quase que inteira deixaria de segui-los), eles resolveram fazer uma boa arte!

Desde então fiz um pacto com minha artista interior. Desde então fortaleci a minha relação com ela, e nosso contrato de trabalho ganhou mais potência.
Parei de reclamar, parei de discutir e tenho canalizado toda essa energia em minha obra. Se agora ouço algo que me soa absurdo já não me chateio mais, trato logo de anotar para usar nos meus livros (temos ótimos discursos de vilões a nossa volta).
O artista é o inconformado que quis fazer mais que reclamar! Que quis fazer mais que discutir e enfiar a sua opinião na goela alheia, ele parou para meditar, elaborou um belo prato e ofereceu ao mundo, e o mundo, degustando cada ingrediente daquela saborosa receita, engoliu o que o artista queria oferecer e, quase que na maioria das vezes, pediu para repetir… Foi daí que surgiram J.K Rowling, Suzanne Collins,  Eduardo Spohr, C. W. Lewis, George Lucas, Neil Gaiman, Veronica Roth, Paulo Coelho, Douglas Adams e tantos outros que nos contam muito mais que histórias! Que fazem mais que música e mostram mais que imagens!

limone

Se você parar para pensar, poderá perceber que o que chamamos de vida na verdade é um grande espetáculo, irreal, com o título irônico de: Realidade. Os papéis de atuação de cada um estão à disposição para livre escolha.
Pergunte-se: qual é o meu personagem? Como quero ser lembrado? Por quem? Com qual motivo? Com qual argumento? Com qual objetivo? Absoluto ou relativo? Grandioso ou vulgar? A escolha do papel que lhe cabe é a maneira mais fácil de reconhecer o seu tamanho, o tamanho da sua obra, e consequentemente o tamanho da sua satisfação quando as luzes do espetáculo se apagarem. Será que você vai gostar da sua atuação? Aguentaria comer o prato que preparou?

Quero aproveitar essa temática para compartilhar com vocês um dos mais lindos discursos de um artista. Neil Gaiman! Um grande cara que poderia ser o cara mais chato do Facebook, mas virou um dos autores mais legais do mundo.

 

“Façam boa arte.
Eu estou falando sério. O marido fugiu com uma política(o)? Faça boa arte. Perna esmagada e depois devorada por uma jibóia mutante? Faça boa arte. IR te rastreando? Faça boa arte. Gato explodiu? Faça boa arte. Alguém na internet pensa que o que você faz é estúpido ou mau ou já foi feito antes? Faça boa arte. Provavelmente as coisas se resolverão de algum modo, e eventualmente o tempo levará a dor mais aguda, mas isso não importa. Faça apenas o que você faz de melhor. Faça boa arte.

Faça-a nos dias bons também.”
Neil Gaiman

———————-

Créditos das ilustrações
Ilustração 01, 02: Pinterest

Compartilhar
Página 1 de 212